Corte de Névoa e Fúria - Meus sentimentos



Recentemente sofri uma grande perda que ativou o gatilho da minha maior dor.

Foi tão rápido que não tive tempo de processar e me peguei recorrendo a uma técnica antiga: usar a fantasia para me distrair e extinguir qualquer sombra de pensamento que me levasse à escuridão.


Aumentei meu ritmo de trabalho, me ocupava dos meninos, dos gatos, das séries e das leituras... Estava tão cuidadosa com cada passo que resolvi ler - Corte de Névoa e Fúria - crente de que a história me levaria para longe da realidade. Eu não poderia estar mais errada.


No livro, encontrei um personagem perdido em sua própria escuridão, julgando-se o pior de sua raça, afinal era assim que era visto. Conheço aquela escuridão e a dor de ter seu corpo violado, enquanto acredita que faz o que é certo para proteger quem ama.


Outra personagem, foi entregue por sua família, aos 17 anos, roubando-lhe qualquer direito sobre si mesma e para que sofresse todo tipo de atrocidade. A mesma idade com que fui entregue. Diferente da Mor, ninguém apareceu para me resgatar.


E havia outra personagem... partida e refeita, por dentro e por fora, e ainda assim tão perdida na dor do que sofreu Sob a Montanha.


Cada personagem lidava com suas feridas abertas como podia, mas com uma força imensa.

Apesar de toda a violência sofrida, eles eram boas pessoas. Exatamente como eu, mesmo depois dos meus anos sob a montanha.

Quando comecei a chorar, não parei mais. Fui ingênua, afinal como escritora sei que, mesmo em histórias de fantasia, tratamos de dores humanas. E lá estavam as minhas, acenando para mim.


Percebi que não estava vivendo o luto da última perda. Eu estava sobrepujando a minha dor com histórias. Eu estava fugindo. Era o que eu fazia nos meus anos "Sob a Montanha": eu sonhava. O único jeito de sobreviver foi sonhando, foi criando as histórias que hoje escrevo com tanta facilidade. E foi tão fácil me voltar para dentro de mim... tão fácil, quente, acolhedor.


Sei que mora um perigo aí, que preciso lidar com a dor e depois deixá-la ir. Mas, por enquanto, não consigo.


Sigo lendo, afinal que leitor nunca fugiu dos próprios sentimentos ao abrir um livro?


Uma história que te chacoalha assim merece ser lida.

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